Grupo A e grupo B: por que a conta é diferente
As unidades consumidoras no Brasil são organizadas em dois grandes grupos tarifários. O grupo B reúne as ligações em baixa tensão, como a maioria das residências, comércios de menor porte e pequenas propriedades. Nesse grupo, a fatura cobra basicamente a energia consumida em quilowatt-hora (kWh), sem uma cobrança separada de potência.
Já o grupo A reúne as unidades atendidas em média e alta tensão, típicas de indústrias, grandes comércios e instalações com carga elevada. Nesse grupo a conta é estruturada de outra forma: além do consumo em kWh, existe uma cobrança de demanda em quilowatts (kW). São dois componentes distintos na mesma fatura, e entender essa separação é o ponto de partida para dimensionar bem um sistema solar em ambiente industrial.
Demanda (kW) e consumo (kWh): o que cada um significa
Esses dois termos costumam ser confundidos, mas medem coisas diferentes. Separar os conceitos ajuda a entender por que a energia solar age sobre um deles e não sobre o outro.
Consumo em kWh
O consumo é a quantidade de energia utilizada ao longo do tempo, medida em quilowatt-hora (kWh). É o mesmo indicador que aparece na conta de qualquer imóvel e representa o acúmulo de energia usada durante o mês. Quanto mais equipamentos ficam ligados e por mais tempo, maior o consumo em kWh.
Demanda em kW
A demanda é a potência solicitada da rede em um dado instante, medida em quilowatts (kW). Ela reflete o pico de carga que a instalação pode exigir ao mesmo tempo. A demanda contratada é o valor de potência que a unidade acorda em contrato com a distribuidora e que fica reservado para o seu uso, disponível sempre que a instalação precisar. Por reservar essa capacidade na rede, a distribuidora cobra a demanda de forma separada do consumo.
Por que a energia solar reduz o kWh, mas não a demanda
Este é o ponto central do tema. Os módulos fotovoltaicos geram energia ao longo do dia e, com isso, reduzem a quantidade de energia em kWh que a unidade precisa comprar da distribuidora. Quanto mais o sistema gera durante o período de sol, menor tende a ser o consumo faturado da rede.
A demanda contratada, porém, segue outra lógica. Ela existe porque a rede precisa estar dimensionada e disponível para entregar a potência que a instalação pode solicitar, inclusive em momentos em que a geração solar está baixa ou ausente, como no fim da tarde, à noite ou em dias muito nublados. Como essa capacidade permanece reservada, a demanda contratada continua sendo cobrada mesmo com o sistema solar em operação.
Em outras palavras, a geração solar atua sobre a energia, não sobre a potência de pico contratada. Por isso não é correto esperar que a solar zere toda a fatura de uma unidade do grupo A: ela reduz principalmente a parcela de consumo, enquanto a parcela de demanda tende a permanecer.
Como isso afeta o projeto e a estimativa de economia
Ao dimensionar um sistema para uma unidade do grupo A, o projeto precisa olhar para os dois componentes da conta de maneira separada. A tabela abaixo resume o comportamento de cada um diante da geração solar:
| Componente da fatura | Unidade | O que representa | Efeito da geração solar |
|---|---|---|---|
| Consumo | kWh | Energia utilizada ao longo do mês | Tende a ser reduzido pela energia gerada |
| Demanda contratada | kW | Potência reservada em contrato | Continua sendo cobrada conforme o contrato |
Essa separação tem duas consequências práticas. A primeira é que a análise de consumo se torna mais detalhada: em vez de olhar apenas para o total da conta, o projeto examina quanto da fatura vem do consumo em kWh, que a solar pode reduzir, e quanto vem da demanda em kW, que permanece. A segunda é que a estimativa de economia fica mais honesta, porque parte da estrutura real da fatura e não de uma simplificação.
Vale lembrar que a definição da demanda contratada é uma decisão contratual da unidade com a distribuidora e envolve o perfil de carga da operação. A energia solar não altera esse contrato por si só, mas a análise técnica do consumo ajuda a entender como os dois componentes se comportam ao longo do tempo.
Fator de potência: um indicador que também entra na conta
Em unidades do grupo A há ainda outro elemento a considerar: o fator de potência. Trata-se de um indicador que relaciona a energia efetivamente utilizada pelos equipamentos com a energia total solicitada da rede. Instalações com muitos motores e cargas indutivas podem apresentar um fator de potência fora da faixa exigida pela regulação.
Quando esse indicador fica fora dos limites definidos, pode haver cobrança adicional de energia e demanda reativas na fatura. Esse é um tema que a análise técnica avalia em conjunto com o projeto solar, já que a instalação fotovoltaica se integra ao ambiente elétrico da unidade. Não se trata de um valor fixo nem de uma promessa de correção automática, e sim de um ponto que o dimensionamento observa caso a caso, dentro das regras vigentes.